Educação Infantil
Relato de Atividade:
Elaborando um jogo parecido
Organizado por : Kátia Stocco Smole - Coordenadora do Mathema
Propusemos a crianças de 5 e 6 anos que elaborassem um jogo a partir de outro já conhecido por elas. Tratava-se da primeira experiência dos alunos nesse sentido, e nós consideramos que ela permitiria a eles terem um parâmetro para sua própria criação, uma referência de como se estrutura o texto de um jogo, como se dá a organização gráfica e espacial de um tabuleiro, entre outros aspectos. O jogo que propusemos era o Jogo da Velha dos bichos:

Clique aqui para conhecer o jogo.

Conhecendo o jogo:

Divididos em duplas, os alunos inicialmente analisaram o tabuleiro de acordo com algumas orientações da professora:

  • Isso que vocês têm na mão é um tabuleiro de jogo. Olhem bem para ele e me digam o que vocês percebem.
  • Por que será que o tabuleiro tem esses números na parte de cima?
  • E os bichos, como são? Onde estão os gatos? Quantas são as tartarugas? O que tem mais, galinhas ou minhocas?
  • Há alguma relação entre os números do tabuleiro e as figuras de bichos?
Como será que jogamos esse jogo?

Enquanto liam a imagem do tabuleiro os alunos perceberam muitos sinais das regras: acho que joga como o jogo da velha; acho que você escolhe um número e um bicho e então joga, etc. A professora anotou as hipóteses em um papel pardo, colocou na sala e, mostrou a eles como jogavam e quais as regras. Fez isso colocando um grande tabuleiro no quadro e jogando junto com a turma. Segundo o depoimento dela:

Foi interessante perceber como rapidamente entenderam as regras e como utilizar os números para jogar, eles adoraram jogar assim. Freqüentemente comentavam coisas como "fale 2 e 1 para por uma ficha na casa com 3 bichos", ou "Não, presta atenção, senão o outro preenche a linha, ou "se escolheu 2 e 3 não pode marcar os grilos".

Apenas na terceira vez em que jogaram é que eles fizeram o jogo em duplas e, após ter acompanhado as duplas e ter certeza que já haviam compreendido as regras, arriscando-se mais nas escolhas dos números, a professora propôs que voltassem ao texto produzido no primeiro momento, que comparassem com as regras para descobrirem semelhanças e diferenças e então produzissem uma escrita final das regras para que outras pessoas pudessem jogar se desejassem. Os próprios alunos voltaram ao texto muitas outras vezes enquanto jogavam.

Para conhecer um jogo é preciso jogá-lo

Jogar mais vezes permite ao aluno apropriar-se de estratégias, compreender o jogo, suas regras e aprimorar seus raciocínios e linguagem enquanto joga. Nesse processo após o término do jogo é possível pedir que os alunos desenhem suas impressões ou que resolvam alguns problemas a partir dele:

  • Júlia escolheu no tabuleiro os números 2 e 3. Em quais bichos pode por sua ficha? Por quê?
  • Paulo colocou uma ficha nos caracóis. Quais os números que escolheu no tabuleiro?
  • Se Ana escolher o 1 e o 3 ela poderá colocar uma ficha nas moscas? Por quê?


  • Nos desenhos produzidos por Carol e Fred após algumas vezes em que jogaram podemos notar a apropriação de elementos do jogo e suas regras: tabuleiro, número de jogadores, colocação das fichas, entre outros.
Produzindo o jogo para quem?

Antes de produzir um jogo com os alunos a professora discutiu quem poderia jogar o jogo que eles criariam. Decidiram que seriam os colegas da classe. Produziram rascunhos dos jogos e uma primeira escrita das regras e experimentaram jogar uns com os outros.


Alguns exemplos de rascunhos produzidos pelos alunos

Observando os desenhos dos alunos a professora percebeu que muitos deles faziam o quadriculado, enchiam de desenhos, mas não apareciam os números para a escolha. Outros faziam apenas o quadriculado. Em uma roda de conversa para jogar com os rascunhos e analisá-los, a professora orientou a análise não apenas pela troca dos tabuleiros preliminares, mas também com algumas perguntas: como é possível ganhar nesse jogo? O que tem no jogo que eu dei, que não tem nesse que vocês criaram? Os desenhos podem ser em qualquer quantidade? Dá para fazer diagonal com qualquer quantidade de quadradinhos no tabuleiro? Ao que os alunos foram concluindo:

  • É preciso ter o mesmo número de linhas e colunas para ter diagonal;
  • A quantidade de desenhos depende dos números que ficam em cima.
  • Não pode desenhar uma coisa só porque nenhuma adição dá 1 e não tem o zero.
  • Se colocar muitos quadrados no jogo vai demorar muito e se colocar poucos fica muito rápido.
  • Os quadradinhos precisam ficar bem retos porque se ficar torto não consegue fazer a linha na diagonal.

As duplas refizeram seus tabuleiros com a professora acompanhando o processo porque "muitas crianças desenhavam quaisquer quantidades de objetos sem relacioná-las com os números que ficam na parte de escolhas".

Terminar o jogo

Melhorados e revisados os rascunhos, foi a fase de passar a limpo e terminar o jogo. Como eles estavam preocupados com a tabela e as linhas que precisavam ser retas, a professora mostrou a eles como fazer uma tabela no computador e imprimir.

Feita a tabelas as duplas finalizaram seus tabuleiros que ficaram assim:


Observando os tabuleiros podemos notar a inclusão em alguns deles do zero e de números maiores que 3. Essa escolha aconteceu em função das discussões feitas nas rodas de conversa nas quais algumas duplas quiseram incluir o zero para obter 1 como soma ou para terem somas maiores que 6.

Finalmente produziram um texto coletivo ensinando a jogar. De acordo a professora os alunos ditaram o texto e ela escreveu. Ao finalizarem ela releu o texto com eles, podendo corrigir algumas repetições e faltas:

As crianças adoraram jogar o próprio jogo bem como os jogos uns dos outros. Além disso, a atividade permitiu uma melhor aprendizagem da adição, o desenvolvimento de estratégias de jogo e, portanto de resolução de problemas, bem como a compreensão de como se processa a elaboração de um jogo, incluindo aí suas regras e tabuleiro.

O papel da professora na produção das regras Com alunos menores que 5 anos, ou aqueles que ainda não conseguem ler nem escrever, o professor pode optar por escrever com os alunos nos grupos os duplas as regras que eles ditam. Já com alunos maiores ou que já consigam expressar suas hipóteses pessoais de escrita, o professor pode sugerir que façam a escrita no grupo e depois ele faz as intervenções que achar adequadas (reescreve, faz análise coletiva, das escritas, etc,). Se a escola possui computador e os alunos já sabem utilizá-lo para digitar um texto, esse recurso pode ser incorporado ao processo. Também é possível que o professor escreva algumas das regras coletivamente e os alunos acrescentem aquelas que forem específicas para seu jogo. Essa experiência foi originalmente publicada na revista Pátio Educação Infantil, ano I, no 2 de agosto/novembro de 2003 e foi desenvolvida com a participação da professora Anna Claudia Ranieri da escola Stance Dual em São Paulo.