Mathema
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  O Enigma de Sherazade
Escrito por: João Fábio Porto

Uma viagem ao mundo dos enigmas
Resenha do livro O Enigma de Sherazade

Qual a fascinação que os enigmas provocam nos homens? O que leva uma pessoa a se envolver tanto na busca por uma resposta que não tem outra serventia a não ser proporcionar o prazer de encontrar a resposta? Essas são perguntas que os homens se fazem há séculos, e para as quais continuamos sem uma resposta definitiva; talvez sejam enigmas sem solução. O certo é que os enigmas fascinam, encantam, envolvem o resolvedor e provocam nele um enorme prazer quando consegue encontrar uma resposta. Para aqueles que desejam entrar nesse mundo dos enigmas, nada melhor que começar pelas obras de Raymond Smullyan,  matemático e filósofo da Universidade de Indiana e da City University of New York..

Smullyan tem uma série de obras que reúnem diversos enigmas matemáticos, mais especificamente de uma parte da matemática, a lógica. Este é o tema central de seu livro O Enigma de Sherazade (Editora Jorge Zahar, 1998), elaborado de uma forma totalmente criativa.

Para entendermos a história que Smullyan escreveu, temos de fazer uma viagem ao passado da literatura. Sherazade é a bela personagem principal da grande história As Mil e Uma Noites, história na qual um monarca tem motivos para acreditar na infidelidade de sua esposa. Enfurecido, mata a infiel esposa e ainda jura por sua barba e pelo Profeta desposar, a cada noite, a mais bela donzela de seus domínios e, na manhã seguinte, entregá-la aos carrascos para ser executada. Esse ato de crueldade do monarca durou por muito tempo, até que ele desposou Sherazade, a bela filha do grão-vizir,

O rei sempre vigiava, escondido, suas esposas na primeira e última noite de casados de suas futuras vítimas. Sabendo disso, Sherazade consegue que sua irmã, Dinarzade, fosse lhe fazer companhia no que seria a sua derradeira noite. A heroína começa, então, a contar uma história fabulosa, com gênios da lâmpada, tapetes voadores e muitas outras maravilhas, à irmã durante a noite, sob o olhar vigilante do monarca, que escuta fascinado a fábula de sua esposa.

Quando chega o momento da execução, a história ainda não chegou ao fim e o rei, muito curioso para saber como ela termina, concede mais um dia de vida à sua astuta esposa. O mesmo acontece no dia seguinte e no seguinte: Sherazade nunca consegue terminar a sua história e uma leva a outra, em uma grande cadeia de acontecimentos. Ao fim de 1001 noites, o monarca acaba esquecendo seu juramento e não só poupa a vida de sua bela esposa como se apaixona por ela e desiste de continuar cumprindo o seu cruel decreto.

No século XIX o escritor norte-americano Edgar Allan Poe resolveu escrever um conto dizendo como foi a milésima segunda noite. Nessa noite, Sherazade conta à sua irmã que todas as maravilhas que acontecem em sua história nada mais são que fatos muito bem explicados pela ciência e são frutos de invenções tecnológicas e que nada têm de sobrenatural. O rei, que ainda estava escutando o relato de sua esposa escondido, se desencanta com essas explicações racionais. Tomado pela fúria, resolve novamente cumprir o cruel decreto de assassinar a esposa ao amanhecer.

É nesse exato momento que começa a história de Smullyan. Esse autor afirma que o relato do escritor americano está correto, porém, em suas pesquisas, ele acabou encontrando uma fonte secreta que afirma que a história não termina como relatou Poe. Segundo Smullyan, quando o rei se revela a Sherazade e revela seu plano de matá-la ao amanhecer, ela aceita o seu destino, mas afirma estar triste pelo monarca, que, curioso como sempre, pergunta-lhe o motivo de sua tristeza, ao que ela responde: “Sinto pena de você, pois, se me matar, não poderei contar alguns enigmas maravilhosos”. O monarca afirma que adora enigmas e que, mesmo muito nervoso, aceitará conceder mais uma noite de vida à esposa desde que ela lhe conte um enigma.

Dessa maneira, a esperta Sherazade começa a desafiar o rei com seus problemas de lógica, e a cada problema ele fica mais fascinado e concede à esposa mais um dia de vida. Smullyan se aproveita dessa continuação das Mil e Uma Noites e oferece ao leitor inúmeros outros enigmas propostos por Sherazade. Assim, como o rei, o leitor acaba ficando curioso e desafiado a resolver o próximo enigma.

Os enigmas estão reunidos em grau de dificuldade crescente, de maneira que o leitor e o rei comecem a revolver os mais simples até que cheguem, ao final da primeira parte do livro, ao que Smullyan chama de “O maior enigma de todos os tempos (possivelmente), a Grande Pergunta de Sherazade”. Ao responder a esse enigma e descobrir qual a pergunta da bela esposa do rei, o leitor poderá descobrir o destino desses dois personagens e o final dessa encantadora história.

Na segunda parte do livro, Smullyan aproveita-se do que foi discutido nos enigmas da primeira parte para propor outros mais complexos, visando discutir diversos aspectos de seu assunto favorito: a lógica. Dessa maneira, o autor inicia o leitor, de uma forma muito, agradável em conceitos de lógica clássica e de outros tipos de lógica, como a coercitiva e a booleana. Esses nomes podem assustar quem não tem paixão pela matemática, mas Smullyan, em sua abordagem, por meio de enigmas, consegue fazer com que o medo inicial do leitor desapareça e, sem perceber, ele já está resolvendo alguns enigmas utilizando alguns complexos conceitos de lógica moderna.

Smullyan consegue cativar seus leitores por meio de uma história criativa e da magia dos enigmas, introduzindo-os, sem traumas, no fantástico mundo da matemática. Para todos os leitores, tanto aqueles que já gostam de matemática quanto aqueles que têm certa aversão a essa disciplina, o livro permite uma viagem que começa no fantástico mundo das Mil e Uma Noites, passa pela explicação racional desse mundo por Edgar Allan Poe, percorre as maravilhas da lógica clássica e nos permite chegar ao fascinante e às vezes perturbador mundo das lógicas modernas. E todo esse caminho tortuoso é percorrido de maneira muito tranquila graças à fascinação e ao prazer que os enigmas proporcionam. Embarque também nessa viagem.