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Notas fechadas, boletins entregues, diários
de classe arquivados. Missão cumprida? Não para
Cristiane Ishihara, professora de Matemática das 5ª
séries no Colégio Assunção, em São
Paulo. Como faz ao final de cada bimestre, ela vai pegar as anotações
que fez em sala de aula, os resultados dos exames e os quetionários
que a turma responde após as provas. Tudo com um objetivo:
avaliar o próprio desempenho. "Dar provas, corrigi-las
e entregá-las não é mais suficiente para
mim. Preciso saber onde estou falhando para planejar o que como
ensinar", afirma. Cristiane está dando o primeiro
e mais importante passo rumo a um sistema de avaliação
escolar justo e motivador. Culpar o aluno pelas notas baixas,
o desinteresse ou a indisciplina nem passa pela cabeça
dela. " Basta que alguns tenham ido mal nas provas para
eu saber que preciso mudar de didática ou reforçar
conteúdos".
Ao rever seu trabalho, Cristiane mostrou que está mesmo
no caminho certo. "Não interessa o instrumento utilizado.
Pode ser prova, chamada oral, trabalho em grupo ou relatório.
O importante é ter vontade de mudar e usar os resultados
para refletir sobre a prática", explica o consultor
e educador Celso Vasconcelos. Para ele, de nada adianta selecionar
novos conteúdos ou métodos diferentes de medir
o aprendizado se não houver intencionalidade - palavra
que ele define, em tom de brincadeira, como "a intenção
que vira realidade". Enquanto os alunos se perguntam o que
fazer para recuperar a nota, os professores devem se questionar
como recuperar a aprendizagem", aconselha.
Mas por que mudar se tudo está correndo bem? O professor
ensina, o aluno presta atenção e faz a prova. Se
foi bem, aprendeu. Se foi mal, azar - é preciso seguir
com o currículo. Esse sistema, cristalizado há
séculos, deposita nos conteúdos uma importância
maior do que eles realmente têm. Até os anos 60,
80% do que se ensinava eram fatos e conceitos. A prova tradicional
avaliava bem o nível de memorização dos
alunos. Hoje essa cota caiu para 30%. Além de fatos e
conceitos, os estudantes devem conhecer procedimentos, desenvolver
competências. E a mesma prova escrita continua a ser aplicada.
Se a missão da escola ao raiar do século XXI é
desenvolver as potencialidades das crianças e transformá-las
em cidadãos, a finalidade da avaliação tem
de ser adaptada, certo? "Na minha opinião, seu principal
papel deve ser ajudar o aluno a superar suas necessidades a partir
de mudanças efetivas nas atividades de ensino", define
Vasconcelos. "O ideal é que ela contribua para que
todo estudante assuma poder sobre si mesmo, tenha consciência
do que já é capaz e em que deve melhorar",
diz Charles Hadji, professor e diretor do Departamento de Ciências
da Educação da Univesidade de Grenoble, na Suiça.
É consenso entre os educadores que o aprendizado, na sala
de aula, não se dá de forma uniforme. Cada um de
nós tem seu ritmo, suas facilidades e dificuldades. Afinal,
somos pessoas distintas. O que complica bastante a vida do professor,
que passa a Ter de avaliar cada de um jeito. "Sim, todos
merecem ser julgados em relação a si mesmos, não
na comparação com os colegas", afirma o espanhol
Antoni Zabala, especialista em Filosofia e Psicologia da Educação
e professor da Universidade de Barcelona. "Não dá
para fugir", continua ele. "É essencial atender
à diversidade dos estudantes".
Ele dá um exemplo. "Que altura deve pular um jovem
de 11 anos?" A resposta é: "Depende..."
Depende de sua potência motora, de suas capacidades físicas
e emocionais, das experiências anteriores e do treinamento,
do interesse pela atividade e muito mais.
Por isso, alguns saltam 80 centímetros. Outros, 1 metro.
Poucos, 1,20 metro. "Se estabelecemos uma altura fixa, excluímos
os que não conseguirem chegar lá no dia em que
a habilidade for medida." Da mesma forma, "quanto deve
saber uma criança? A resposta também é depende.
De sua história, dos conhecimentos prévios, da
relação com o saber e de incontáveis outros
fatores. E não existe ninguém mais capacitado do
que o professor para saber "quanto" essa criança
domina (ou tem a obrigação de dominar) em termos
de conteúdos, conceitos e competências.
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O
papel do desejo
Dar provas, corrigi-las
e
entrega-las não é mais
o sulficiente para mim.
Preciso saber onde estou
falhando para para planejar
o que e como ensinar.

Cristiane
Ishihara,
pesquisadora da Mathema,
é profa. de
matemática da 5ª série no
Colégio Assunção
em são Paulo |
Quando a escola não leva isso em
conta, o estrago é inevitável. Estudos realizados
pela pesquisadora Kátia Smole sobre o impacto da avaliação
na auto-estima do aluno mostram que os boletins baseados no desempenho
em provas têm apenas uma função: classificar
a garotada em "bons" ou "maus", o que tem
cada vez menos utilidade. "O pressuposto de que existe uma
inteligência padrão está ultrapassado",
avalia. Segundo ela, o que acaba ocorrendo são desvios
no objetivo maior da escola, que é ensinar. Ao sentenciar
que uns são mais e outros, menos, o saber fica em segundo
plano. "O jovem valoriza a nota, não o aprendizado",
exemplifica. "Em vez de se relacionar com o mundo, ele só
vai querer aprender em troca de prêmio (a nota) e, nesse
ambiente, só sobrevive que se adapta ao toma lá,
dá cá."
Mas existe uma conseqüência mais nefasta: tirar da
criança a vontade de aprender. Afinal, só existe
motivação quando há desejo. O aluno que
não valoriza o saber não tem motivos para cobiça-lo.
"O antigo sistema forma pessoas submissas e intolerantes.
Quem não consegue atender à expectativa do professor
e da sociedade acaba marginalizado", analisa Kátia.
Antoni Zabala apresenta exemplos bem práticos e recheados
de comparações com fatos do dia-a-dia para ajudar
a desatar esse grande nó. "O professor deve ser um
misto de nutricionista e cozinheiro", diz ele. "O primeiro
preocupa-se em elaborar refeições saudáveis
e o outro quer pratos apetitosos. No planejamento da aula, devemos
agir como nutricionistas, pensando nas competências que
o aluno deve desenvolver. Na classe, precisamos atuar como cozinheiros,
propondo atividades interessantes e que possam ser executadas
com prazer."
Na sua opinião, a avaliação completa envolve
quatro etapas, tantas quantas uma dona-de-casa executa ao fazer
compras. "Ela vê o que tem na despensa, lista o que
falta, estabelece objetivos - como preparar refeições
balanceadas - e vai ao mercado", descreve. "Lá,
ela começa uma série de observações,
que podem mudar os rumos da tarefa original. Se um produto estiver
muito caro, a saída será buscar outro ponto de
venda. Se estiver estragado, terá de ser substituído
por outro de semelhante valor nutritivo."
Traduzindo para a sala de aula, o professor precisa de objetivos
claros, saber o que os alunos já conhecem e preparar o
que eles devem aprender - tudo em função de suas
necessidades (avaliação inicial). O segundo passo
é selecionar conteúdos e atividades adequadas àquela
turma (avaliação reguladora). Periodicamente ele
deve parar e analisar o que já foi feito, para medir o
desempenho dos estudantes (avaliação final). Ao
final, todo o processo tem de ser repensado, de forma a mudar
os pontos deficientes e aperfeiçoar o ensino e a aprendizagem
(avaliação integradora).
A primeira pergunta que professores, coordenadores e diretores
devem fazer é: Com que objetivo vamos avaliar? Para formar
pessoas ou futuros universitários? Para classificar e
excluir alunos ou para ajudá-los a aprender? Para humilhá-los
com suas dificuldades ou incentivá-los com suas conquistas?
É importante frisar que não existe resposta certa
ou errada. Ela está no projeto pedagógico de cada
escola. Se a opção é selecionar os melhores
e excluir os outros, então a melhor saída é
a boa e velha prova. Caso o compromisso seja no sentido de incentivar
o aluno a enfrentar desafios, então a conversa muda de
rumo.
Infelizmente, não existe uma fórmula mágica.
Ao contrário. "A escola ideal, que atenda à
formação de cada um individualmente, não
existirá nunca. Mas estabelecer que esse é o horizonte
aumente as chances de acertar o caminho", acredita Zabala.
Celso Vasconcelos também entende que o sistema tradicional
não atende aos objetivos da escola do terceiro milênio,
mas acha que é possível democratizá-lo.
"Se a nota for dinâmica e servir como indicadora da
situação do aluno naquele momento, ela pode apontar
rumos a seguir."
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Incentivo
ao aprender
O aluno é
um individuo
em constante crescimento.

Renata
Stancanelli,
pesquisadora da Mathema,
é Profa. de 5ª série
do colégio Emiliede
Villeneuve de
São Paulo. |
É justamente o que faz Cristiane
Ishihara. Ela criou um jeito próprio de melhor aproveitar
o exame. Dias depois de aplicá-lo, ela o distribui novamente,
em branco, e pede que cada aluno responda, para cada problema
proposto, se:
- fez e está seguro de que aprendeu;
- fez, mas não está seguro
de que tenha aprendido;
- fez, mas tem certeza de que errou por
Ter-se confundido na resolução;
- fez, mas tem certeza de que errou porque
não aprendeu;
- se não fez, qual o motivo.
"Essa foi a maneira que encontrei
de colocar a prova a serviço dos estudantes", explica.
Depois de tabular as respostas, ela detecta as dificuldades gerais
da turma e as específicas de um determinado grupo, além
do nível de segurança de cada um em relação
aos conteúdos. Se a maioria apresentou deficiência,
Cristiane ensina tudo de outra maneira. Se alguns não
aprenderam, ela prepara exercícios para ser trabalhados
em casa ou na sala de aula. |
| De
mestre a parceiro |
Esse método é elogiado por
especialistas. "A dificuldade do aluno deve mesmo ser encarada
como um desafio pelo professor", endossa Luiz Carlos de
Menezes, físico, educador e um dos autores da matriz de
competências do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
"O importante é que a avaliação esteja
fundamentada, explicando claramente aqueles tópicos em
que o estudante avançou e quais ele ainda precisa trabalhar."
Sem esquecer, é claro, de mostrar como isso pode ser feito.
Dessa maneira, o educador se torna um parceiro, que quer e vai
ajudar: "É preciso romper definitivamente o estereótipo
do mestre com a fita métrica na mão, pronto para
medir, julgar e rotular cada um de seus estudantes." Assim
como Zabala e Vasconcelos, Menezes encara a prova com muitas
restrições, pois ela geralmente é centrada
na memorização e no uso de algoritmos e foca conteúdos
científicos com dia e hora marcada para acontecer.
É por isso que muitos apontam o professor de Educação
Infantil como um modelo a ser seguido. Todos os dias, ele oferece
atividades diferentes e criativas para reter a atenção
das crianças, orienta todo o trabalho, que geralmente
é feito em grupo, e observa. Observa muito, e aí
está o segredo. A cada dois ou três meses elabora
um relatório para os pais, enumerando os pontos em que
o aluno avançou e os que precisam ser trabalhados, tanto
no que diz respeito a conhecimentos como a atitudes.
Mas como olhar atentamente e conhecer bem cada estudante, se
as classes têm 30 ou 40 deles e o professor tem duas ou
três aulas por semana com diversas turmas, que mudam todos
os anos? Já imaginou propor atividades diferentes de acordo
com o nível de aprendizado e, ainda por cima, fazer um
relatório personalizado no final de cada bimestre?
Sim, é possível fazer isso. A saída mais
eficiente, dizem os especialistas, é propor trabalhos
em grupos, que permitem observar melhor as atitudes individuais
e coletivas. Menezes sugere ainda que se dê prioridade
a estudos do meio, com propostas de atividades variadas, nas
quais todos tenham a chance de explorar suas potencialidades.
Outro consenso é a importância da auto-avaliação.
Ela está diretamente ligada a um dos objetivos fundamentais
da educação: aprender a aprender. É óbvio
que o próprio aluno tem as melhores condições
de dizer o que sabe e o que não sabe, se um determinado
método de ensino foi ou não eficaz no seu aprendizado
e de que maneira ele acredita que pode compreender determinados
conteúdos com mais facilidade. Para isso, basta conversar
com a turma, de forma sincera e direta, ou fazer questionários
onde todos possam expor livremente suas críticas e sugestões.
Quanto mais freqüentes forem essas conversas mais rapidamente
aparecerão os problemas e, o que realmente importa, as
respectivas soluções.
"Disciplinas, espaço e tempo devem ser instrumentos
da educação, não seus carrascos", resume
Zabala. E você? Gostou do que leu nessa reportagem e quer
transformar sua escola? Ouça o conselho de Zabala "Se
você quer mudar as formas de avaliar, parabéns.
O passo mais importante para a mudança acaba de ser dado." |