
| Quebre cinco tabus da resolução de problemas | |
| Ricardo Falzetta | |
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A resposta de um problema sempre existe, é numérica, única e chega-se a ela por um só caminho. |
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A resolução deve ser
rápida. Do contrário isso indica que não se sabe resolver. |
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Se errar, não adianta investigar o erro,
é preciso começar de novo. |
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Acerto só vem com esforço e prática
para a memorização dos procedimentos. |
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Uma questão não pode gerar dúvida,
pois o bom professor não pode fazer isso com a turma. |
| Pense
na seguinte questão: "Um fazendeiro possui 30 ovelhas
e 45 cabeças de gado. Qual a idade do fazendeiro?"
Se seus alunos estão acostumados a resolver apenas problemas
convencionais, provavelmente eles diriam: "Que conta eu
tenho de fazer? É de mais ou é de menos? Setenta
e cinco anos... Não entendi." O enunciado, é
evidente, não tem solução. Não há
como descobrir a idade do fazendeiro, mas nem todos os estudantes
demonstram capacidade e autonomia para chegar a essa conclusão.
Tudo porque a escola não costuma ensiná-los a pensar
desse jeito. No modelo tradicional, eles formam a idéia
fixa de que problemas matemáticos servem apenas para a
aplicação e memorização de regras
e técnicas de cálculo. Ampliar essa visão
implica derrubar tabus. Mais precisamente, cinco crenças
identificadas pelas consultoras em Educação Matemática
Kátia Stocco Smole e Maria Ignês Diniz com base
na observação de escolas brasileiras e em pesquisa
realizada nos Estados Unidos pela professora Raffaella Borasi,
da Universidade de Rochester, no início dos anos 1990
(veja ao lado quais são elas). O certo deveria ser desenvolver nos alunos a competência para resolver problemas de qualquer natureza: compreender uma situação, analisar e selecionar os dados, mobilizar conhecimentos, formular estratégias de maneira organizada, validar os resultados e, se for o caso, propor novas situações. Os resultados do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico, porém, mostram que boa parte do insucesso escolar se deve à falta de capacidade de interpretar corretamente os enunciados. Mas é possível mudar esse quadro. Veja agora como fazer isso. |
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| Nenhuma ou várias soluções | Você
está na Penha, bairro da zona leste de São Paulo,
e quer ir a Santo Amaro, na zona sul, num dia de muita chuva.
São mais de 20 quilômetros. O que fazer? Ir de ônibus,
táxi, carro, bicicleta, trem, metrô. Escolher as
principais avenidas ou caminhos alternativos para tentar fugir
do congestionamento. Tudo isso é possível, certo?
Mas o que é mais importante? Ponderar várias hipóteses:
o dinheiro para a condução, a hora do compromisso,
pontos de alagamento, locais perigosos. A crença de que
o enunciado sempre tem resposta, numérica, e de que há
apenas uma forma correta para chegar até ela é
efeito direto do uso exclusivo de problemas ditos convencionais
na sala de aula. Detectar esse tabu não é complicado. Derrubá-lo exige planejamento e persistência. O professor Humberto Luis de Jesus, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Afrânio de Mello Franco, em São Paulo, fez isso no ano passado numa turma de jovens e adultos. Na primeira lista de exercícios que passou, Humberto pedia que eles descobrissem apenas a operação que resolveria as questões. No meio delas, incluiu um problema sem solução. "De início todos ficaram intimidados, não aceitaram a pergunta e chegaram a questionar que 'metodologia de trabalho' era a minha", conta. "Aos poucos perceberam que o raciocínio que eu pedia era algo que usamos no trabalho, na vida cotidiana." A mesma desconfiança apareceu alguns enunciados adiante: "Ana e Júlia têm, juntas, 13 fitas para cabelo. Quantas fitas cada uma tem separadamente?" Há várias possibilidades de resposta. Ana, uma e Júlia, 12. Ana, duas e Júlia, 11. E assim por diante. Mais indignação entre os alunos. Mais uma quebra de tabu, pois é possível, sim, existirem problemas para os quais haja várias respostas. Para mostrar à turma de 3ª série do Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas, que um problema pode ser resolvido de várias formas, a professora Marina Agostinho Daleffe convida alguns alunos para registrar e explicar suas estratégias no "painel de soluções" (o quadro-negro dividido em partes onde cada aluno apresenta sua resposta). "Isso melhora a autoconfiança deles, pois percebem onde estão errando e onde estão acertando - e como melhorar", diz ela. |
| Rapidez: devagar todos chegam lá | Na
Matemática, como na vida, quanto mais rapidamente você
resolver problemas melhor. Mas a agilidade não é
condição para determinar se alguém sabe
ou não chegar a uma solução. Para derrubar
o tabu de que quem não resolve um problema com rapidez
é porque não sabe fazê-lo, basta dar tempo
aos alunos. No Colégio Marista Nossa Senhora da Glória,
em São Paulo, a turma de 4ª série da professora
Ana Cláudia Florindo recebe a cada quinzena um desafio
matemático. Isso mesmo, 15 dias para resolver uma questão.
"Eles podem resolver como quiserem, com a ajuda dos pais,
dos colegas ou perguntando a mim", explica. Esse mesmo trabalho
é feito com turmas de 5ª série em diante no
Marista de Brasília, porém com uma semana de prazo. No Glória, a antiga caixa de recados, utilizada para troca de correspondência como incentivo à escrita e à leitura, deu origem à caixa de dúvidas matemáticas, onde todos depositam bilhetes descrevendo as dificuldades que encontraram nos problemas. "Com isso avaliamos a turma tanto de forma coletiva como individual", afirma a assessora pedagógica Maria Paula Nicolini. O resultado é visível. Nem os mais tímidos perdem a chance de se manifestar. |
| No caminho do erro
esconde-se o acerto |
Se errar, não adianta investigar o erro. É preciso começar de novo, certo? Errado. Um trabalho eficiente com resolução de problemas não combina com a avaliação classificatória. Não é possível simplesmente recolher atividades, verificar se a resposta está correta e devolver uma nota ao aluno. No Colégio Marista de Brasília, por exemplo, algumas atividades são corrigidas pelos próprios estudantes, que trocam os exercícios entre si. "Quando encontram um erro, peço que eles procurem onde o raciocínio falhou e expliquem ao colega", conta o professor Luiz Otton Dumont Filho, da 6ª série. Outra estratégia utilizada por Otton, uma vez a cada semestre, é a avaliação em dois tempos. Assim que termina uma prova, Otton devolve a folha de perguntas ao aluno e permite que ele escolha uma questão para refazer e entregar no dia seguinte. "A condição, acertada com todos desde o início, é que eles mantenham as respostas originais e entreguem a nova solução numa folha separada." O objetivo, segundo Otton, é que o jovem se auto-avalie, compare os caminhos que seguiu e encontre a origem do erro. |
| Esforço sim, decoreba não | Uma
prova sobre quadriláteros, aplicada pela professora Shirleni
Mazoni Cavalcanti, da 7ª série do Marista de Brasília,
sinalizou, há dois anos, que algo estava errado com suas
aulas de Matemática. "Na revisão da matéria,
os alunos fizeram tudo direitinho, mas no fundo eles estavam
apenas repetindo algo que não haviam entendido. Na prova,
com questões diferenciadas, vieram as respostas mais estapafúrdias",
conta. Shirleni percebeu que os alunos estavam somente tentando
decorar os conceitos (apostando na crença de que a memorização
é tudo). O problema não acontecia somente nas aulas de Shirleni. Mudar a postura de ensino foi o primeiro passo. "Começamos a realizar encontros periódicos entre professores de séries diferentes", lembra-se ela. No primeiro momento, para saber o que cada um estava fazendo. Depois para planejar o trabalho de forma continuada. "Uma dificuldade que tive foi a de dar voz aos alunos", admite Luiz Otton. "Eu achava que poderia perder o controle da sala, não aceitava uma aula barulhenta, mas fui percebendo que eles conversavam sobre Matemática, trocando idéias, colocando suas dúvidas. Quer coisa melhor?" |
| O benefício da dúvida | Ao contrário do que diz o tabu, é possível, sim, criar questões que gerem dúvidas. Tudo depende do aluno que se quer formar. Você quer que seu aluno seja no futuro um indivíduo passivo, que aceita cabisbaixo tudo o que lhe apresentam, ou alguém crítico, que propõe hipóteses e tira as próprias conclusões? Se for esse o caso, não traga respostas prontas. Faça como as professoras do Liceu Salesiano, que, ao perceber que um determinado desafio da problemoteca estava gerando alvoroço entre os alunos, potencializaram a questão. "O problema era um pouco mais complicado e os jovens começaram uma disputa (bastante saudável, diga-se de passagem) para ver quem descobria a melhor estratégia de resolução", conta a coordenadora pedagógica Isabel Cristina Jarnallo dos Santos. Até os pais foram convidados a participar. |
| Eles pediram mais | Há dois anos os alunos do Liceu Salesiano escolhem na problemoteca um desafio matemático para resolver sempre que terminam as atividades do dia antes do final da aula. A idéia, uma caixa contendo fichas numeradas com problemas selecionados ou formulados pelas professoras, nasceu de um anseio dos próprios alunos. "Trabalhando com problemas mais desafiadores no nosso planejamento de Matemática, eles passaram a sentir prazer em solucioná-los e começaram a pedir mais", afirma a professora Marina. Os enunciados são extraídos de livros didáticos e, muitas vezes, passam por alterações que ampliam o desafio. Veja um exemplo: |
| Problema original | Roberto coleciona figurinhas e já conseguiu 13 para o álbum. Daniel, seu irmão, faz a mesma coleção e tem 19 figurinhas. Só para provocar, Daniel disse que já tem o dobro de Roberto. Quantas figuras Daniel tem a mais que Roberto? No caso, basta subtrair 13 de 19 para chegar à resposta. |
| Modificação na pergunta | É
verdade a afirmação de Daniel? Quantas figurinhas
faltam para que Daniel fique com o dobro da quantidade de seu
irmão? Com o novo enfoque da pergunta o aluno é desafiado a justificar por que Daniel está mentindo. Para isso terá de recorrer ao conceito de dobro e explicar que, para a afirmação de Daniel ser verdadeira, ele precisaria ter 26 figurinhas. E que, portanto, faltam sete. |
Teoria![]() |
Saiba
identificar problemas convencionais e transformá-los em
desafios mais interessantes e úteis. Exemplo: O perímetro de um quadrado é 34 metros. Quanto mede cada lado? A resposta é 8,5 metros.
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| Quer saber mais? | Colégio
Marista de Brasília, Av. L2 SGAS, Q 609-A, 70200-690, Brasília, DF, tel. (0_ _61) 442-9400 Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, R. Justo Azambuja, 267, 01518-000, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 3207-5866 Escola Municipal de Ensino Fundamental Afrânio de Mello Franco, R. Acambaro, 39, 04827-250, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 5667-5444 Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, R. Baronesa Geraldo de Resende, 330, 13075-270, Campinas, SP, tel. (0_ _19) 3744-6800 Mathema, R. Andaquara, 164, 04673-110, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 5548-6912 |
| BIBLIOGRAFIA | Crianças
Pequenas Reinventam a Aritmética - Implicações
da Teoria de Piaget, Constance Kamii e Leslie Baker Housman, 277 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 42 reais Ler, Escrever e Resolver Problemas, Kátia Stocco Smolle e Maria Ignez Diniz, 203 págs., Ed. Artmed, 44 reais |
| Revista Nova Escola Edição Nº 160 - Março de 2003 |