
| Matemática sem problemas | |
| Solange Barreira | |
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Fazer
pirâmides com canudinhos, jogar amarelinha, cantar, desenhar,
ler e escrever histórias não parecem atividades
que se enquadrem em aulas de matemática. Mas é
assim que cerca de 2 mil alunos de São Paulo estão
aprendendo a ciência dos números, num projeto de
ensino que teve início há seis anos e vem quebrando
recordes de eficiência. Ao contrário do que propõem as escolas tradicionais, os estudantes não são escravizados à chatice de currículos ultrapassados, nem tampouco submetidos ao sistema de memorização compulsiva do método japonês Kumon. Pela nova maneira de aprender matemática, eles se divertem em atividades que envolvem o corpo e a imaginação, até cada um encontrar sua rota ideal de trabalho. Esse método é baseado na chamada Teoria das Inteligências Múltiplas, que surgiu há 15 anos na Universidade Harvard, nos Estados Unidos desenvolvida pelo psicólogo Howard Gardner. A teoria não aborda propriamente técnicas de ensino, mas dispõe sobre uma nova forma de encarar a inteligência do ser humano. |
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Segundo Gardner, a inteligência é
um grande quebra-cabeça composto de sete principais tipos
de inteligência, que nascem com o indivíduo ou podem
ser desenvolvidas ao longo da vida. São elas: lingüística,
corporal-cinestésica, espacial, musical, interpessoal,
intrapessoal e lógico-matemática.Para se ter uma idéia, o modelo difundido por grande parte das escolas, em todo o mundo, costuma valorizar apenas duas dessas capacidades: a lingüística e a lógico-matemática. Por isso, os professores costumam ensinar valendo-se dos recursos da linguagem escrita e falada, ora da lógica propriamente dita. Quando tomou conhecimento dessas idéias revolucionárias, em 1992, a professora brasileira Kátia Cristina Stocco Smole, mestre em matemática pela Universidade de São Paulo (USP), ficou entusiasmada. "Eu sempre usei jogos, dramatização e montava álbuns com as melhores produções", lembra Kátia. "Quando conheci a Teoria das Inteligências Múltiplas, descobri que ela abria um leque de possibilidades para ser explorado nas aulas." Desde então,
Kátia começou a desenvolver várias atividades,
adequadas a diferentes faixas etárias, de forma que os
números deixassem de ser um martírio na vida dos
alunos. Duas escolas particulares aceitaram embarcar na nova
proposta de ensino: o Instituto Salesiano Dom Bosco, de Americana,
no interior de São Paulo, e o colégio Emilie de
Villeneuve, na capital paulista. Dos dois Kátia se tornou
consultora. Foi assim que, para alegria dos alunos, a atividade escolar virou
brincadeira. Por exemplo: os jogos de amarelinha e de bola de
gude passaram a ser utilizados para familiarizar crianças
de quatro a cinco anos com os números. Ambos estão
ligados diretamente à inteligência lógico
- matemática e ajudam a fornecer noções
de espaço ( inteligência espacial ), de regras (
interpessoal ), de ganhar e perder ( intrapessoal ), sem falar
na inteligência corporal, estimulada pelo ato de pular
as casinhas de amarelinha ou pela percepção motora
requisitada para arremessar as bolas de gude. Jogos com sombras
e mosaicos de papel se transformaram em instrumento para apresentar
a geometria às crianças da escola infantil ( o
antigo pré- primário ). Na primeira série,
pirâmides feitas de canudinhos passaram a ajudar no trabalho
com as formas geométricas. |
| Música para afastar
o fantasma da tabuada ![]() |
Mas houve dificuldades.
Quando o primeiro grupo de alunos chegou à segunda série,
apareceu o grande fantasma da memorização da tabuada.
Para resolver isso, Kátia resgatou velhas cantigas como
"sete e sete são, com mais sete 21 ..." e inventou,
com outras professoras, brincadeiras novas baseadas em números.
Com alunos da terceira série, a professora constrói
maquetes de sólidos geométricos, ao som da canção
Aquarela, do compositor Toquinho, que fala de traçar figuras
numa folha de papel: "Numa folha qualqer eu desenho um sol
amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer
um castelo ...". Um recurso muito utilizado para todas as
idades é a literatura. Kátia propõe o uso
de livros que falem, por exemplo, sobre figuras, tragam noções
de medidas, ou que sirvam de inspiração para o
tema que se está estudando.Ao fim de cada trabalho, ela pede a todos que façam relatos escritos ou desenhos sobre a atividade feita em classe. Dessa forma, avalia-se melhor o desempenho de cada um e o do grupo como um todo. Aliás, a forma de avaliação é outro aspecto relevante da nova proposta. As provas tradicionais já não são mais a única e todo - poderosa forma de determinar se um aluno comprendeu ou não um conceito. A professora tem uma ficha de cada aluno, onde faz observações diárias levando em conta todo o aspectro de inteligências. Se uma criança está retraída, por exemplo (um sinal de deficiência da inteligência interpessoal), ela procurará convocá-la para mais atividades em grupo. "O objetivo da avaliação é saber que alunos atingiram as metas estabelecidas e por quais rotas. Assim é que cada professora pode rever suas estratégias para chegar a resultados melhores, individualmente e em grupo", explica Kátia. O mais revolucionário dessa proposta de ensino, contudo, é que não existem alunos "burros", mas "diferentes", e que precisam ser estimulados por rotas distintas. A escola é a responsável efetiva pela apreensão dos conhecimentos de cada um, de forma que há um pacto para que não se recorra a professores particulares. Ainda há uma certa resistência à aceitação da nova ordem, o que é natural. Alguns pais, educados por métodos tradicionais, continuam se arrepiando ao ouvir, por exemplo, que seu filho pulou corda na aula de matemática. A consagração do método, entretanto, parece ser uma questão de tempo. Nos dois colégios, por exemplo, já está se chegando a índices de reprovação perto de zero em matemática. E o Colégio Dom Bosco já está indo mais longe, ao aplicar a metodologia a outras matérias. |
| Os diferentes caminhos do conhecimento | Segundo
a Teoria das Inteligências Múltiplas, cada pessoa
possui sete inteligências, que se complementam como um
quebra-cabeça. Os professores Nílson Machado e
Kátia Smole propõem, ainda, uma oitava inteligência,
a pictórica, que é a habilidade em desenho. Cada uma dessas inteligências representa uma diferente via de acesso como uma diferente forma de expressão. Isso não significa que elas existam isoladas, Ao contrário, interagem durante toda a vida, prevalecendo ora uma, ora outra, dependendo da situação. As inteligências possuem características básicas e podem ser associadas a talentos profissionais, como segue: ![]() |
| Revista Globo Ciência Nº 78 janeiro de 1998 |