
| Avaliação de atitudes: meio ou fim? | |
| Cláudia Cavalcanti Pereira - Pesquisadora do Mathema de São Paulo | |
| O que é
avaliar o sujeito, suas atitudes? Quais as implicações
da não avaliação deste âmbito da aprendizagem
escolar? A meu ver análise desta questão perpassa
dois caminhos. Primeiramente, em relação ao que se quer com a tal avaliação, em segundo lugar, com a forma de conexão de seus objetivos aos princípios que a sociedade valoriza e cultua. Sabemos que o que se quer com avaliação depende em boa parte da ética que perpassa as ações educativas e a própria cultura da instituição. O que é valorizado pela equipe de professores, será a ancora da sua forma de avaliar o sujeito, ou de camuflar esta avaliação. No caso, por exemplo, de escolas que não possuem um projeto de estabelecimento, expressão de um compromisso coletivo, como diz Boutinet, o sujeito sofrerá as conseqüências de avaliações pautadas exclusivamente na ética do professor ou grupo de professores. A questão que se coloca nestes casos é saber como isso soa ao aluno. Ele concorda com tal avaliação, com apreciação unitária, sem respaldo da equipe, sem acolhimento dos pares de quem avalia? Talvez esteja aí uma das questões da indisciplina, não simplesmente pela leitura equivocada ou anti- democrática de um professor, mas pela falta de montanhas para ecoar. O que não ecoa, se perde no vácuo, na ausência. Ausência da equipe, do outro, do ponto de referência que equilibra a leitura e direciona o olhar do educando e do educador. Na sua dor de saber o outro, seu aluno. Qual deve ser o caráter da avaliação de atitudes? Que atitudes avaliar? Como já disse, o que é valorizado pela instituição guia a avaliação de atitudes. Olhando para a função da escola, podemos afirmar que as atitudes a serem avaliadas deveriam ser aquelas estreitamente vinculadas a aprendizagem, e com isso, descartaríamos aquelas listas enormes, para focar o olhar no que realmente é essencial. Novamente, voltamos aos projetos escolares que definem os rumos tanto do que ensinar, quanto do que avaliar. Imaginemos que em uma escola pública, em qualquer lugar desse país, a escola assuma a alfabetização de seus alunos como seu projeto principal e queria fazer parcerias com a comunidade local para conseguir atingir suas metas. Certamente surgirá a necessidade de se valorizar novas atitudes, como o respeito à comunidade, a valorização do saber dos adultos, o respeito àqueles que não lêem, a valorização e o resgate da cultura das pessoas daquela região, entre tantos outros. Tais atitudes não se encaixariam num projeto de instituição fechado e restrito, restando portanto àquelas atitudes básicas: levantar a mão, ouvir o colega, expor suas idéias. Não seriam elas mais que atitudes, e sim condições básicas que naturalmente acontecem nos diversos âmbitos de vivência de qualquer cidadão? Ensinar e avaliar atitudes me parece algo que exige maior reflexão por se tratar de questões voltadas ao campo da ética e portanto dos valores, o que a torna mais profunda e abrangente que um simples levantar a mão para falar. Nossas crenças, valores, expectativas, nosso modo de agir, nossa impressão a respeito de nós mesmos, enfim, nossa identidade como indivíduos está condicionada à cultura na qual fomos imersos desde o nascer. O ensino e a avaliação de atitudes pode ser uma forma de ampliar nossa condição de indivíduos, propiciando a reflexão sobre valores morais que permeiam nossas vidas. Este diálogo não está restrito somente ao âmbito escolar, outras instituições influenciam e são influenciadas pelas atitudes que os cidadãos exercem socialmente. A escola pode ser um local aberto para discussão dos conteúdos desses valores. Vivemos muito pautados, por exemplo, em proibições - não matarás, não roubarás - talvez pudéssemos ser guiados por afirmações, como: respeite a vida ou respeite o que é do outro. Com isso quero ilustrar que as formas de educar, tanto na escola, como na sociedade de modo geral, nos apresentam valores pelos quais pautamos as atitudes ensinadas e avaliadas. Esta discussão sobre que atitudes avaliar requer então muitas outras reflexões. Além do olhar para a cultura na qual a escola está inserida. Afinal, ao se avaliar selecionamos o que será valorizado. Longe de tudo isso, vemos a escola discutindo como marcar sua insatisfação com determinadas atitudes, pensando se atribui ou não notas, informando ou compartilhando suas leituras sobre a atitude do outro. Cabe pensar sobre quais são as contribuições de tais ações. Parece-me que ao tomar a avaliação de atitudes como algo realmente importante teremos diante de nós a necessidade de inúmeras reflexões sobre ética, valores, democracia, enfim sobre os pilares de nossa sociedade. Como avaliar atitudes sem discutir estas questões? A avaliação de atitudes aponta para novas reflexões da escola, seu papel e sua influência na formação do cidadão. Como se estivesse dizendo não basta listar as atitudes é preciso saber onde se quer chegar, quais são as possibilidades, quais são as limitações e quais são as parcerias necessárias. Requer refletir sobre o papel da escola hoje e no seu local de atuação específico. Não refletir sobre que atitudes avaliar pode impedir o andamento do projeto deixando de impulsionar mudanças substanciais nas aprendizagens, tanto dos alunos, como dos professores. Voltando ao âmbito da sala de aula, se torna evidente que o professor precisará analisar o quanto sua classe se aproxima dos alvos da instituição para mapear quais serão seus marcos de aprendizagem, ou melhor, quais são as atitudes a valorizar com seus alunos. Neste sentido, conhecer o aluno, sua cultura, é fundamental neste processo de levantamento das atitudes a avaliar. Conhecer para não colocar na fôrma, não moldar com base em sua visão restrita de homem e de cidadão. Conhecer para atender às necessidades, que na soma dos individuais formará o coletivo específico daquele grupo. As fichas para diagnóstico portanto devem conter os dois lados, os avanços e as necessidades, para se ter clareza de onde se quer chegar. Apenas acusar a falta, torna o planejamento capenga, pois não haverá indícios de por onde caminhar. O diagnóstico deve ser uma bússola que aponta o caminho mais próximo e ao mesmo tempo fornece dados para rotas alternativas. As atitudes ensinadas neste percurso são aquelas coerentes com a forma de ensinar, diagnosticar e planejar. Partindo de um projeto de instituição conhecido pelos alunos, parece que estará claro o que se espera deles, mas é preciso criar formas de compartilhar com os alunos estes alvos e metas. Neste sentido os alunos podem contribuir à medida que compartilham estes alvos, na medida que vê uma função clara nesta avaliação, se vê como o centro do processo ensino e aprendizagem. A confiança, tão presente nos relatos da equipe aparece aqui como algo imprescindível na avaliação de atitudes. Cumplicidade, vínculo, confiança, responsabilidade pelas decisões, afetividade, avaliação de atitudes, meios para a aprendizagem das atitudes. A avaliação de atitudes implica discussões amplas sobre a função da escola e perpassa também questões da prática, mas de modo algum, pode fugir a reflexão sobre a cultura para a qual, e na qual, o processo educativo ocorre. |
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| Referências bibliográficas: |
Abrecht, Roland. Avaliação Formativa. Rio Tinto: ASA, 1994. Almeida, L. S. e Tavares, J. (org). Conhecer, aprender e avaliar. Porto: Porto editora, 1998. Boutinet, Jean-Pierre. Antropologia do projecto. Lisboa: Instituto Piaget, 1990 |