
| Comunidade virtual: a criação de um curso on-line e a aprendizagem colaborativa | |
| Katia Stocco Smole, Neide Pessoa e Patrícia Cândido | |
A aprendizagem à distância feita por uma rede de computadores ou pela internet é uma categoria de ensino que vem ganhando espaço na educação. Mais e mais pessoas buscam cursos à distância por motivos tais como localização, tempo-espaço, flexibilidade, entre outros. Há muitas questões que permeiam o ensino on-line e têm origem na relação entre o aluno e a máquina, na relação com os colegas e com o professor, tais como: é possível saber se o aluno está envolvido com o curso? Como avaliamos a participação e a freqüência do aluno? Como podemos perceber se o aluno apresenta incompreensões? Como lidar com os alunos que não participam das discussões? Como ler as emoções dos alunos? Como lidar com as discordâncias e os conflitos da turma? Essas reações influenciam a participação e o envolvimento do grupo, a disposição dos participantes e a personalidade desenvolvida a partir dessa interação. Tomamos como base os textos “Construindo fundamentos” e “Estimulando a aprendizagem colaborativa”, ambos de Rena Palloff e Kaith Pratt, publicados no livro Construindo comunidades de aprendizagem no Ciberespaço (2002) De acordo com os textos lidos, há vários tópicos que envolvem a criação de uma comunidade virtual e diferentes estratégias para estimular a aprendizagem colaborativa. Dentre eles destacam-se a criação de um plano de ensino, a construção do site do curso on-line e o trabalho colaborativo. Como em qualquer processo visando ao ensino e à aprendizagem, ao organizarmos um curso utilizando recursos da internet, é fundamental a criação de um plano de ensino que considere as metas e objetivos que se deseja alcançar, a escolha dos recursos e materiais que serão utilizados e com qual finalidade, a configuração que se deseja que as diferentes telas de tarefas tenham, para que fique sempre clara a área na qual as propostas de aula e atividades são apresentadas, além de um roteiro organizado de itens e tópicos que se quer abordar. Tudo indica que o planejamento funcionará como um grande mapa de diretrizes e direções tanto para quem organiza quanto para quem participa de um curso à distância. No entanto, esse mapa tem muitas rotas possíveis, nem é tão rigidamente estabelecido que impeça modificações no percurso, nem tão aberto que deixe o curso e seus participantes à deriva. Pela flexibilidade que exige, o plano do curso deve ser feito em várias etapas. Uma com diretrizes gerais, orientadora do período em que dura o curso, e outras mais próximas da própria execução das aulas, que podem ser feitas semanalmente. No plano semanal, devem interferir a participação dos alunos e as observações do gestor, tutor ou educador que acompanha o grupo on-line. Quem elabora um plano de ensino à distância precisa apresentar claramente as diretrizes do curso, visando a uma participação aceitável dos alunos, deixar claro o conteúdo e o que espera do aluno durante o curso ou em cada uma das etapas (horários, tarefas, participação, prazos, avaliação, etc.). Finalmente, o planejamento precisa servir para aproximar as pessoas que participam do curso, uma vez que elas não conviverão em espaço real, não terão os gestos e os olhos como fonte de aproximação. Assim, quem planeja um curso on-line precisa, desde o início, preocupar-se em planejar ações para garantir o envio das mensagens de apresentação dos alunos na primeira semana de discussão on-line, bem como propor atividades e problemas que estimulem a discussão entre os participantes, garantindo espaço para que se conheçam e se aproximem. A construção do site do curso on-line é outro fator importante na busca por resultados eficientes em um programa de ensino à distância, pois a estrutura organizacional pode colaborar com a interação de cada participante, com o material e entre si. Ao construirmos um site para o curso, devemos nos preocupar em definir o software a ser utilizado, que deve ter uma estrutura básica, flexível, que permita organizar o curso de acordo com as diretrizes da proposta. Não podemos também esquecer que nem todo participante conhece os recursos tecnológicos; por isso o site deve ser de fácil navegação e conter elementos que permitam ao usuário aprender tanto os conteúdos do curso quanto os recursos da tecnologia. É importante que haja uma perfeita sintonia entre a organização visual do site e o planejamento de ensino mencionado anteriormente; por isso não é possível planejar o curso sem que se conheçam muito bem os recursos da plataforma do site, de modo que as ações do curso não fiquem prejudicadas por um planejamento que seja inexeqüível em função do site que é possível montar. A relação entre planejamento e site, os processos de navegação, a forma de apresentação do curso, entre outros fatores, podem influenciar a participação do aluno e garantir que ele continue no curso participando ativamente ou não. Esses cuidados com o planejamento e o ambiente exigem uma reflexão cuidadosa a respeito das mídias a serem utilizadas no projeto de EaD que se deseja desenvolver. De acordo com Kenski (2005), há muitas mídias que se podem usar em EaD; a escolha se dará não em função das possibilidades tecnológicas apenas, mas sobretudo de acordo com os objetivos do curso, com os alunos que se pretende atingir, com o espaço e o tempo disponíveis para a realização do curso. Nesse sentido, o tipo de mídia a ser utilizado está ligado ao que se espera de participação do aluno, o que se deseja que ele faça, à integração exigida dos participantes e à forma prevista para a gestão dos tempos de quem coordena e participa do curso à distância. Kenski afirma, ainda, que os instrumentos de mídia podem ajudar a controlar a participação, a ter noção do envolvimento com a tarefa proposta, a conhecer melhor o grupo e favorecer o inter-relacionamento entre os alunos. Para que o curso ocorra bem no que diz respeito aos recursos que disporá, é necessário portanto aquilo que Kenski chama de plano de mídias, que é um plano no qual se levam em conta as pessoas, os tempos, as tarefas, os custos, as disponibilidades e formação dos tutores, as exigências de apoio técnico e administrativo, a acessibilidade e a complexidade dos recursos tecnológicos para os usuários, a infra-estrutura exigida para as mídias que se quer utilizar, a qualidade que tais mídias permitirão para as aulas, as tarefas, a interação e, finalmente, se as mídias escolhidas permitirão uma aprendizagem colaborativa. Feito o plano de mídias, há a necessidade de pensar sobre os métodos de ensino na estrutura da educação à distância. Por isso, na construção do ambiente de realização do curso, é importante fazer uma reflexão sobre o curso com base em perguntas e análises de respostas a elas. Nesse sentido, qualquer organizador de um curso à distância em ambiente virtual deveria antes refletir profundamente sobre suas metas, sobre os limites e possibilidades da ação que deseja empreender, além, é claro, de analisar o papel que deseja que os participantes do curso desempenhem no processo de ensino e aprendizagem. Um terceiro aspecto relevante na definição de comunidades virtuais é o trabalho colaborativo, que tem grande influência na obtenção de bons resultados ao se desenvolver um curso on-line. Quando os participantes do curso trabalham de forma colaborativa, é possível produzir um conhecimento mais profundo, mas isso requer do grupo uma maneira de estudar que permita formular um objetivo comum para o processo de aprender, que cada participante possa trazer suas experiências pessoais e que o diálogo possa ser um meio efetivo de investigação. Para que os alunos sejam conduzidos na direção de objetivos comuns, podemos propor diferentes estratégias, que destacamos a seguir. Prever momentos de apresentações pessoais e de expectativas pelos participantes, permitindo a negociação dos rumos do curso, e, eventualmente, intervir nas expectativas do professor, bem como estimular o comentário sobre as apresentações pessoais de modo que todos se sintam reconhecidos e acolhidos em uma nova situação, em um novo curso, em um novo grupo. É interessante, também, que alunos e professores formem uma equipe, de modo que o professor não assuma o comando nem deixe o processo única e exclusivamente na mão dos participantes. O tutor ou professor deve conduzir um pouco, deixando claras as diretrizes e as expectativas dele (o que espera do grupo), mas fundamentalmente conduzir o processo pensando e sentindo o grupo, lembrando que, no trabalho de equipe, devem ser previstas as avaliações entre pares e auto-avaliação, e, ainda, que à distância é possível propor trabalhos em grupos, promover debates, análise de opiniões. No ambiente colaborativo, o diálogo permanente entre os alunos deve ser favorecido, e para que isso aconteça o professor pode tomar alguns cuidados tais como não dominar a conversa, facilitar o diálogo, facilitar a discussão estimulando o questionamento permanente, propondo e valorizando o interesse por materiais e temas que expandam o nível de reflexão e investigação dos participantes. Outro fator importante é a divisão de responsabilidades, dando ao aluno a oportunidade de ser responsável por liderar uma parte da discussão, bem como de exercer diferentes papéis nas atividades ao longo do curso. Finalmente, podemos dizer que um dos itens mais relevantes para que haja a criação de um curso on-line eficiente é a preocupação que devemos ter com a aprendizagem, uma aprendizagem que, segundo Palloff e Pratt (2002), deve ser transformadora. Entende-se por aprendizagem transformadora aquela que se baseia na reflexão e na interpretação de experiências, idéias e proposições e que leva aos participantes do curso a um processo de auto-reflexão. A aprendizagem transformadora encontra-se intimamente associada com a construção de sentidos por quem aprende e tem como meta entender por que vemos o mundo como o vemos, levando quem aprende a superar perspectivas limitadoras de interpretação do conhecimento e da realidade. Esse tipo de aprendizagem baseia-se na análise crítica e no diálogo, bem como na validação de parceiros de reflexão. Dadas as suas características e exigências, para que a aprendizagem transformadora ocorra, é fundamental que os alunos aprendam pensando sobre sua própria aprendizagem, tendo consciência dos processos pelos quais aprendem. O ambiente virtual, o site do curso e as propostas planejadas ganham importância inegável nesse processo, uma vez que a tecnologia pode e deve favorecer diferentes tipos de integração entre todos os envolvidos no processo de ensinar e aprender. A tecnologia pode favorecer a reflexão sobre a própria aprendizagem, enquanto o aluno a utiliza, uma vez que envolve novas formas de ensinar e também de aprender. No ambiente colaborativo, a aprendizagem transformadora se potencializa, uma vez que se aprende pelo uso da tecnologia, pela interação com o professor e com outros participantes e pela reflexão pessoal mediada por diferentes processos de avaliação da aprendizagem. Como podemos inferir dessas poucas reflexões que apresentamos neste texto, a criação de um curso on-line eficiente que favoreça a aprendizagem colaborativa e transformadora exige, como em qualquer outra situação de ensino e aprendizagem, seriedade e estudo dos que idealizam e conduzem o processo. Fora de um bom planejamento, sem clareza do papel esperado dos alunos, sem a certeza de que uma aprendizagem só ocorrerá verdadeiramente se for significativa, nenhum curso poderá ter sucesso, seja ele presencial ou virtual. | |
| Referências bibliográficas: | Kenski, Vani Moreira. Gestão e uso das mídias em projetos de Educação à Distância. In: Oliveira, Maria A. M.(org.). Gestão educacional: novos olhares, novas abordagens. 2ª ed. São Paulo: Vozes, 2005. PALLOFF, Rena e PRATT, Keith. Construindo comunidades de aprendizagem no ciberespaço – estratégias eficientes para as salas de aula on-line. Porto Alegre: Artmed, 2002. |