
| Currículo: o que encontramos na escola de hoje? | |
| Maria Ignez Diniz - Coordenadora do Mathema | |
Há dois currículos na escola de hoje. Um efetivo, real, acontecendo nas salas de aula e um segundo contido nos discursos, nos documentos oficiais e oficiosos, entre eles regimentos, planejamentos, diários, livros didáticos e PCNs. Se falarmos do primeiro, seu centro é a aula de cada dia, com suas atividades quase sempre ligadas ao conteúdo específico e que para serem realizadas exigem certa organização de espaços e tempos, que, por sua vez, exigem papéis dos alunos nos espaços e tempos disponíveis. O segundo currículo compõe o cenário e vai pouco a pouco transformando as práticas, em um processo lento e, por vezes, caótico. Primeiramente ele se transforma em discurso, para depois como água em pedra dura, ir fazendo mudanças nas direções em que a pedra é mais porosa ou menos dura. É isso que encontramos na escola. A estrutura da escola em que todos nós estudamos, com professores especialistas, ou mesmo no caso de polivalentes, com aulas específicas para cada disciplina, horário de aulas curtas por serem consideradas no passado adequadas à transmissão de informações, sem cansaço excessivo dos alunos meros ouvintes, conteúdos com fronteiras bem definidas e com forte caráter propedêutico de prepara sempre para o futuro, a lógica dos conteúdos específicos é a lógica do ensino. Professores formados assim, famílias formadas assim, materiais produzidos nesta perspectiva de escola e finalmente, uma estrutura de organização que dificulta bastante qualquer tentativa de integração ou articulação mais cuidadosa seja dos conteúdos, seja das pessoas dentro da escola, mostram a rocha em que a água deve bater. O currículo presente nas nossas escolas é o pautado no código da especialização denominado mosaico, apesar do discurso negar veementemente isso. Tempos, espaços, conteúdos e professores especialistas, guardam limites estreitos entre si, marcando bem as peças de um grande mosaico que deveria se transformar no conhecimento que a escola deseja que os alunos aprendam. Nesse momento, vejo o currículo da escola assim, como a rocha construída pelos saberes de gerações sendo erodida pelas novas teorias de aprendizagem, metodologias e posturas mais críticas de quem pensa a escola dentro desta sociedade em constante e cada vez mais acelerada mudança. Mas, sem dúvida, o currículo que encontramos em nossas escolas hoje ainda tem a forma da rocha original. |