
| Educação Matemática: O lugar do pensar, do sentir e do querer | |
| Kátia Stocco Smole - Coordenadora do grupo Mathema de São Paulo | |
| Em todas
as instâncias nas quais educadores reúnem-se para
discutir sobre ensino de matemática, parece haver um consenso
de que uma educação matemática básica
deveria contribuir com uma preparação para o exercício
da cidadania, cabendo à escola auxiliar o aluno, também
a partir das aulas de matemática, a desenvolver o sentimento
de solidariedade, o desejo de justiça, o respeito pelo
outro e pelas diferenças e a valorização
da dignidade, entre outros aspectos que dizem respeito a uma
formação de valores que vai além dos conhecimentos
específicos. Por outro lado, uma outra questão que, apesar de sua aparência antiga, continua viva entre os educadores que ensinam matemática diz respeito ao pensar. É comum que ao conversarmos com os professores eles considerem que o grande desafio da matemática é ensinar os alunos a pensarem, a desenvolverem o raciocínio lógico. Ou ainda que a dificuldade que por vezes os alunos apresentam para aprender matemática está relacionada ao fato de eles possuírem uma baixa habilidade de pensamento. À primeira vista podemos ter a impressão de que os dois aspectos acima relacionados são diametralmente opostos, de um lado questões de formação mais relacionadas ao sentir e de outro, o pensar. Talvez de forma precipitada há quem considere que, como professores de matemática, devêssemos em primeiro lugar cuidar em desenvolver o pensar e depois, viriam os aspectos relativos aos valores, aos sentimentos. Afinal, tradicionalmente todos sabemos que a matemática é a ciência da razão e que há outras disciplinas que podem cuidar de valores e de sentimentos como é o caso de filosofia, artes e mesmo história e geografia. Se por um lado, a relação entre o pensar e a matemática seja legítima como, aliás, seria se considerássemos qualquer outra ciência, por outro lado sabemos que uma das características mais marcantes do ser humano, e que nos diferencia de outros tipos de seres, é a capacidade de sentir e de querer. É impossível ignorar que o querer é aquilo que nos move, que nos remete ao futuro, a um futuro sempre repleto de vida. De fato, ao querermos algo projetamo-nos em direção ao nosso alvo, empreendemos esforços para atingir o que desejamos, podemos avançar e progredir como pessoas, como gente. e mesmo modo sabemos que não é possível que sejamos movidos apenas pelos impulsos do querer desconsiderando outras pessoas, a sociedade, as regras de convivência, o sentido de dignidade. Surge aqui a importância do sentir, dos sentimentos traduzidos em valores. Os valores vividos e pensados permitem fazer a crítica a um desejo, limitam e delimitam ações, guiam o comportamento pessoal por meio da vivência, do cumprimento consciente e assumido de normas de conduta, não apenas pela vivência social, mas principalmente pela capacidade de pensar e decidir escolhas para alcançar as metas. O que desejamos marcar é que pensar, sentir e querer são dimensões presentes e igualmente importantes na constituição do ser humano, do ser que aprende e, portanto, a escola não tem como desconsiderar essas dimensões, nem mesmo nas aulas de matemática. É cada vez mais necessário superar a aparente dualidade entre formar valores e ensinar matemática. Essa superação em nossa opinião exigirá a ultrapassagem de outras dualidades clássicas tais como pensar (razão) x sentir (emoção), que ainda impedem um olhar mais amplo para o aluno em aulas de matemática. |
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Temos como hipótese que uma tal ultrapassagem poderia ser obtida por meio de ações didáticas que envolvessem cuidados com alguns aspectos básicos do processo de ensinar e aprender matemática, e que apresentamos a seguir para estimular o debate e a reflexão que pretendemos provocar por meio desta palestra:
Certamente os desejos envolvidos em tais
aspirações são de que os conhecimentos matemáticos
contribuam para manter vivos no aluno, por toda a escolaridde,
a curiosidade e o desejo de saber que toda criança manifesta
ao entrar na escola. Mais que isso esperamos que o saber matemático
se traduza para o aluno como um conjunto de recursos aos quais
recorra para resolver com êxito diferentes tipos de problemas
que se apresentem a ele nas mais variadas situações,
para tomar decisões, para decidir por essa ou aquela conduta,
e que não tenha sentido apenas em um determinado momento
pontual de uma aula. |
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| Referências bibliográficas | Hamburger, J. A razão e a paixão. São Paulo: Francisco Alves, 1992. Lanz, R. A pedagogia Waldorf: caminho para um ensino mais humano. São Paulo: Antroposófica, 1998, 6a ed. Marina, José Antonio. Teoria da inteligência criadora. Porto, editorial Caminho, 1998. Machado, Nilson José. Cidadania e educação. São Paulo: Escrituras, 1997. Perrenoud, Philippe. Desenvolver competências desde a escola. Porto Alegre, ARTMED, 1999. Sacristán, J. G. e Pérez Gómez, A.I. Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Artmed, 1998, 4a ed. |