Matéria de Estudo
Reflexões
  Método Kumon    Sim ou não? Depende...
  Kátia Cristina Stocco Smole
Maria Ignez Diniz
Cristiane Chica

O Método Kumon completa 25 anos de atuação no Brasil com uma rede de 1550 franquias atendendo a mais de 80 mil alunos. Com toda esta repercussão, já é chegada a hora de questionar sobre a real validade e aplicabilidade deste método na educação brasileira.

Método Kumon

Há algum tempo temos visto crescer o número de crianças que freqüentam aulas em cursos Kumon e é freqüente que pais e professores nos procurem para saber o que pensamos a respeito da proposta desse curso.

Este método de ensino matemático foi criado no Japão e trazido para o Brasil na década de 70. O sistema começou a tomar forma em 1954 quando Tooru Kumon, professor da disciplina no curso colegial criou para seu filho uma seção de exercícios de reforço que podia ser resolvida em menos de 30 minutos. O método se espalhou rapidamente pelo Japão. No Brasil, o sistema veio a ser aplicado pela primeira vez em 1977 em uma escola para filhos de japoneses a trabalho em São Paulo e desde então o número de alunos que passam por aulas de Kumon teve um crescimento significativo. Entendemos que este movimento deve-se principalmente ás dificuldades que os alunos sentem com a matemática escolar, as falhas do ensino dessa disciplina na escola e, finalmente, á ansiedade dos pais em ver seus filhos livres dos problemas com a matemática.
 

 

A base do trabalho Kumon é a repetição exaustiva de técnicas de cálculo e a auto-instrução; embora as aulas às vezes, sejam dadas em pequenos grupos o que conta mesmo é o trabalho individual. Há também implícita a esse “método” a idéia de que o bom aluno é aquele que responde corretamente ao que se pede.

Para opinar sobre a adequação ou não dessa forma de ensinar matemática é preciso em primeiro lugar considerar o que é exigido do aluno para que ele mostre saber matemática e a forma como os professores ensinam matemática na escola.

Se uma escola considera que saber matemática é fazer cálculos rapidamente, resolver problemas muito parecidos uns com os outros por meio da identificação de uma técnica operatória, e que aprender matemática é fazer listas repetitivas de exercícios e problemas, então é comum que o processo Kumon funcione aparentemente, afinal as bases do trabalho escolar e no Kumon combinam perfeitamente.

No entanto, o mundo de hoje exige a formação de indivíduos cada vez mais críticos, criativos, hábeis em tomar decisões e que saibam trabalhar cooperativamente juntos a um grupo. Nesse cenário amplamente influenciado pela tecnologia, calculadoras e computadores são usados para fazer cálculos e as demais tarefas repetitivas e mecânicas. Que lugar teria então uma formação matemática que privilegia destreza, memória e repetição?

A matemática poderia contribuir muito para formar pessoas que correspondem a essas expectativas se estiver voltada para desenvolver o potencial criativo e se a escola aborda-la por meio de uma metodologia que leve o aluno a sentir a matemática como um jogo, um desafio, uma ciência a serviço do progresso social, científico e tecnológico do homem.

Sob essa ótica há outros aspectos mais essenciais a serem trabalhados pelos professores para auxiliar o aluno a usar a matemática no crítico da cidadania do que apenas técnicas de cálculo, por exemplo, a habilidade de resolver problemas, a capacidade de fazer estimativas de quantidades e medidas, a habilidade de coletar, organizar e analisar dados estatísticos e o desenvolvimento de capacidades geométricas.

Nesta visão, “o bom aluno” não deveria ser aquele que cumpre simplesmente tarefas para as quais foi adestrado, mas aquele que é capaz de enfrentar desafios, que vê no erro um caminho para evoluir para soluções mais adequadas, que busca e propõe soluções para os problemas com quais se de­para e que é capaz de vislumbrar diferentes alternativas para uma mesma questão, sabendo decidir-se pela melhor delas.

Sob essa ótica, o Kumon e suas técnicas de repetição são inadequados. De fato nossa experiência tem mostrado que crianças que fazem Kumon e estudam em escolas com esta segunda visão podem ter sucesso em momentos e tarefas específicas como, por exemplo, nas técnicas operatórias, no entanto, quando lhes é exigido um raciocínio mais elaborado podem fracassar e sofrer com isso porque nas aulas de Kumon a busca é por não errar, mas não por aprender por que o erro ocorreu. Muitas vezes a ênfase na técnica mascara incompreensões conceituais e é essencial que isso seja levado em conta. Por outro lado, quem conhece, quem aprende matemática, se lhe falha a memória conta com outros recursos para obter sucesso em situações novas, mas o contrário não é verdadeiro.

Voltando ao caso dos pais que nos indagam sobre pôr ou não o filho no Kumon, nossa resposta costuma ser para que antes de tomar essa decisão questionem o próprio trabalho da escola e verifiquem qual é a concepção de ensino e aprendizagem de matemática que fundamenta os seus trabalhos, e se a escola e os professores já esgotaram as estratégias que podem ser usadas para auxiliar a criança em dificuldade. O que não podem é deixar à criança a culpa por não aprender e a punição de ter que fazer aulas extras por ansiedade dos pais ou por não ter tido a chance de aprender de novo.

Com relação aos professores que desejam melhores resultados de seus alunos em relação a procedimentos de resolução de problemas e, especialmente, em relação aos cálculos, vale a pena perguntar: cálculo mental é a mesma coisa que fazer cálculos rapidamente?

Consideramos que não, pois cálculo mental deveria ser sinônimo de cálculo pensado e de saber escolher a melhor estratégia de cálculo quando ela lhe for exigida.

O que parece necessário é que o professor busque com seus alunos conquistas mais efetivas no ensino e aprendizagem, tanto na Resolução de Problemas, quanto no cálculo através de estratégias tais como jogos, literatura, problemas de quebra-cabeças entre outras, que podem auxiliar os alunos a desenvolverem não apenas técnicas, mas essencialmente habilidades e competências que ampliem a confiança em sua capacidade de aprender matemática e transpor os conhecimentos conquistados para outras situações.

Revista @prender
Nº 05 – Março/Abril de 2002
Referências
bibliográficas:

Brasil Secretaria de Educação Fundamental. Paramêtros Curriculares Nacionais,
Matemática. Brasília : MEC/SEF,1998.

Para C. e Saiz, I. (org)
Didática da Matemática.
Porto Alegre : Artmed, 1996.

SMOLE, K. S. e Diniz. M. I.
Ler, escrever e resolver problemas:
habilidades básicas para aprender matemática.
Porto Alegre: Artmed, 2001.