Matéria de Estudo
Reflexões
  Avaliação: Uma longa caminhada na busca por respostas
  Kátia Stocco Smole - Coordenadora do grupo Mathema de São Paulo
 

Temos nos questionado muito sobre avaliação e encontramos no texto de Paulo Abrantes novos pontos para reflexão:

  • A avaliação como distância não reforça a idéia do pré-requisito?
  • Haverá uma relação entre os modelos de avaliação e as concepções de conhecimento e inteligência?
  • Quais os diferentes instrumentos de avaliação que podem ser utilizados em cada modelo de avaliação? Há um principal em cada um deles?

Ao refletirmos sobre essas e outras questões foi possível perceber claramente que a concepção de avaliação como medida está diretamente relacionada com a idéia de que o conhecimento é dado por transmissão, como se o aluno fosse um balde vazio - pode soar estranho, mas é isso mesmo.

Desse modo, para ver o nível do conhecimento - ou do balde - faz sentido que o principal instrumento de avaliação, nessa concepção, seja uma prova que ocorre ao final de um tempo. Único instrumento, individual, sem consulta, a prova vale pelo tempo de "matéria dada" e para avançar é preciso que haja muito conteúdo.

Nessa concepção de avaliação o comportamento é apenas observado e o fracasso é atribuído geralmente ao aluno: desinteresse, falta de pré-requisito, falta de dom, não tem inteligência suficiente.

Embora a avaliação como distância, ou por objetivos, pareça inicialmente uma alternativa à concepção anterior, ela tem na essência a medição. Possuindo um lado tecnicista, traz o diagnóstico como forma de ver quantos objetivos os alunos alcançaram; a prova organizada por objetivos deixa claro que a idéia é avaliar um conhecimento encadeado, linear, onde cada objetivo é pré-requisito para outro mais complexo.

A prova continua o principal instrumento, e quando o aluno não se sai bem se buscam falsas soluções ou remediações para solucionar suas falhas: mais exercícios relacionados aos objetivos que não atingiu, recuperação paralela, outra chance de prova, etc.

Nessas duas concepções de avaliação é possível perceber uma tendência à cultura da homogeneização: provas iguais, baseadas em exercícios parecidos com aqueles realizados antes da prova. O processo seletivo é evidente, abrindo espaço para classificar os alunos segundo seu desempenho em provas.

Embora nas provas haja uma tendência em avaliar objetivos observáveis, no
parecer final (nota bimestral) intervêm outros aspectos que fazem parte de um
currículo não explícito: comportamento, habilidades que o aluno não tenha e que
o professor deseja, etc.

Na concepção da medida e da distância, o currículo se organiza como um mosaico de disciplinas justapostas, a cultura validada é a dos conteúdos da matéria e não há um olhar para o sujeito.

O planejamento é o lugar de onde são tirados os objetivos a serem avaliados e um programa de ensino sobre o qual a avaliação não tem nenhum acesso ou interferência.

Quando pensamos em uma escola que se preocupa em articular ensino e aprendizagem, que olha o sujeito, "conversa" com sua cultura, que tem os objetivos como um mapa do processo, então a medida não avalia e a classificação não faz sentido.

Seria preciso que a avaliação servisse como bússola de trajeto para interpretar o mapa e fazer alterações no caminho se necessário. A prova já não tem tanta importância e não reina absoluta em um processo que exige olhar constante, atento e investigador.

Para que essa avaliação ocorra é preciso que saibamos que o conhecimento é dado por relações entre significados e que os alunos não podem ser "medidos" na avaliação, uma vez que são diferentes, possuem múltiplas competências e formas de aprender.

Longa caminhada para tal mudança de concepções. Longa caminhada para responder questões sobre avaliação e alterar a cultura da escola em relação a ela.
Referências
bibliográficas

Abrantes, Paulo.
Avaliação e Educação matemática - vol. I. MEM/USU- GEPEM, 1995.

Perrenoud, Philippe.
Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens - entre duas lógicas.
Porto Alegre: Artmed, 1999.

Smole, Kátia C. S.
Inteligência e avaliação:
da idéia de medida à idéia de projeto.
Tese de doutoramento em educação - área de Ensino de Ciências e Matemática. Apresentada á FEUSP em maio de 2001.