Matéria de Estudo
Reflexões
  Professores e ornitólogos
  Kátia Stocco Smole - Coordenadora do Mathema
  De longe é possível reconhecer um adolescente ou um grupo deles. Seja pelo seu modo de vestir, de falar, ou porque andam em bandos como se fossem pássaros. Seja pela irreverência ou pela aparente agressividade ou desprezo com que lidam com o mundo, as pessoas, a escola e as tarefas que lhes são impostas.

Na escola, especialmente de Ensino Médio, esse grupo característico tem se tornado o desafio dos educadores, se é que podemos assim dizer. Indisciplina, rebeldia, cinismo não raro são palavras que o professor utiliza para adjetivar os alunos. Outras vezes os educadores ficam incomodados com a supervalorização dos amigos em detrimento do modelo adulto, ou dos conhecimentos escolares.

Parece que tudo é mais importante que a literatura, a gramática, os mapas, os conflitos sociais ou as equações da Matemática.

No entanto, se olharmos para essa questão mais de perto, se considerarmos o ponto de vista do aluno, se procurarmos conhecer quem é esse espécime raro, quais são seus hábitos, qual sua forma de crescer, evoluir e, portanto, sobreviver, podemos ter indícios de que por detrás de todo esse comportamento característico e por vezes irritante, há mais do que nossas explicações ou análises tópicas evidenciam.

De acordo com Fierro, pais, amigos e professores têm cada um a sua importância na formação e na vida do adolescente. Os amigos são a referencia para o presente, para a busca do par, para a auto-afirmação e a vivencia dos papéis que precisa desempenhar ou aprender agora.

Os pais e outros adultos são a referência do futuro, a forma de aquisição da escala de valores. Ainda que por vezes pareça que eles nos ignoram, o que de fato ocorre é a observação, a validação ou refutação de um modelo de vida por parte do adolescente. Fierro afirma que na adolescência as pessoas redefinem sua posição na família, se opõem a superproteção dos pais, e estabelecem novos horizontes de aproximação com outras pessoas. Ainda segundo esse autor, é o momento de desenvolver competências que serão de grande importância para toda a vida.

O adolescente precisa nesse momento da reflexão e estabilização de modelos, da convivência equilibrada com pessoas que não acentuem os conflitos e angustias adolescentes. Ainda que inconscientemente, não espera que a sociedade cobre dele um comportamento adulto ao mesmo tempo em que o trata como criança. Na sua confusão, procura a coerência.

Mas será que nós adultos estamos preparados para ajudar nessa travessia? Conhecemos a outra face dessa moeda?

Temos a impressão que os conflitos hoje existentes, especialmente na escola estão relacionados a dois fatores entre outros: desconhecimento e falsas expectativas. Por um lado, os adultos, pais e professores, desconhecem os adolescentes, seus anseios, sua forma de ser, de pensar e se desenvolver. De outro lado, especialmente por parte dos professores, há uma ilusão, uma vontade de receber um aluno pronto seja do ponto de vista, afetivo, cognitivo ou social. Ele deve ter seus conhecimentos, ser bem comportado, educado, não ter dificuldade, agir responsavelmente, idolatrar a escola, não questionar se não aprender, ser quieto, atencioso, etc, etc, etc.

Esse desconhecimento e essa expectativa idealizada comprometem a visão real, geram uma sensação de impotência, e muitas vezes até de revolta do adulto com relação ao adolescente. Corremos o risco de falar do adolescente não como quem fala de uma pessoa em processo de formação. Esperamos deles coisas que nós mesmos não fizemos quando éramos da idade deles, ou que não fazemos como adultos.

A superação dos conflitos exige que o professor olhe e descubra o adolescente com a paixão de um ornitólogo que descobre um pássaro nunca antes visto. Ele o admira, sabe sua importância, mas não o idealiza. Vê suas tonalidades, o som do canto, a singeleza dos hábitos. Cataloga as informações e registra sua descoberta, sabendo o valor que ela tem. Senão para os outros, mas para si mesmo que foi capaz de olhar, de observar e descobrir algo que fará diferença em sua vida profissional.
Referências
bibliográficas:
Coll, César e outros.
Desenvolvimento Psicológico e Educação.
Porto Alegre: Artmed, 2000. vol 1.

Fierro, Alfredo.
Desenvolvimento da personalidade na adolescência. In Coll, César e outros. Desenvolvimento Psicológico e Educação.
Porto Alegre: Artmed, 2000. vol 1, pág 288 a 305.

Hargreaves, Andy e outros.
Educação para mudança:
recriando a escola para adolescentes.
Porto Alegre: Artmed, 2001.