
| Refletindo sobre alguns aspectos do processo de resolver problemas | |
| Cristiane A. Ishihara, Kátia Stocco Smole, Mila Taunay e Patrícia Cândido | |
Quando alguém resolve problemas, certamente está envolvido em um trabalho mental para superar obstáculos buscando uma solução. Esse processo é marcado por etapas características da resolução de problemas, quais sejam, identificação, definição e representação do problema, construção de estratégias, organização da informação, alocação de recursos, monitoração e avaliação. Tais etapas fazem parte do que Robert Sternberg, um dos mais importantes pesquisadores da atualidade no campo da psicologia cognitiva, denomina ciclo da resolução de problemas (2001). Vários aspectos envolvidos na compreensão do processo de resolver problemas incluem a discussão do ciclo da resolução de problemas. Neste texto, pretendemos analisar três desses aspectos:
Diversas categorias podem ser utilizadas para classificar os problemas. Uma delas é a que distingue os problemas bem estruturados (ou bem definidos) dos mal estruturados (ou mal definidos). Os problemas que apresentam, para quem os resolve, um caminho claro e imediatamente disponível para a resolução são denominados problemas bem estruturados. São também características desse tipo de problema: o conhecimento dos estados inicial e final, a boa especificação das regras, a possibilidade de decidir se a solução é correta ou não. Alguns problemas bem estruturados podem ser resolvidos usando-se um caminho formal que envolve um ou mais processos repetitivos, isto é, usando-se algoritmos. Quando o resolvedor considera que no problema há ausência de algum desses elementos, podemos dizer que, sob sua ótica, o problema é mal estruturado. Em geral, quem resolve problemas mal estruturados tem mais dificuldade em construir representações mentais apropriadas para modelar esses problemas e suas soluções. Além disso, há dificuldade de elaboração de um plano para avançar continuamente em direção à solução. Por esse motivo, os problemas mal estruturados são os que mais mobilizam as etapas do ciclo da resolução de problemas. A classificação dos problemas em convencionais e não-convencionais, categoria amplamente estudada por diversos pesquisadores, não apresenta correspondência direta com os problemas bem e mal estruturados, pois a divisão em convencionais e não-convencionais presta-se mais a uma organização do ensino em favor da aprendizagem dos alunos, enquanto a categoria que distingue problemas bem ou mal estruturados serve para entender aspectos relacionados à cognição, ou ao próprio processo de resolução de problemas. Auxílios e obstáculos à resolução de problemas Segundo Sternberg (2001), transferência é uma configuração mental que se refere ao transporte de habilidades para resolver problemas, de um tipo para outro, podendo ser positiva e negativa. Transferência positiva é o transporte de conhecimentos de um cenário para outro. É a aplicação de uma estratégia que funcionou bem em dado problema, em um problema análogo. A transferência de conhecimento só será positiva se o solucionador for capaz de estabelecer correspondência entre as relações estruturais dos problemas, fazendo assim analogia. Polya (1978) explica a analogia como uma espécie de semelhança. Em se tratando de resolução de problemas, ele distingue duas formas de uso de analogia. Uma delas ocorre quando procuramos descobrir um modelo de resolução a partir de um problema análogo mais simples do que aquele que precisamos resolver. Outra se dá quando usamos só o resultado de um problema análogo sem preocupação de como tal resultado foi obtido. Para Sternberg, a transferência de analogia deve ser intencional, isto é, ao fazer a analogia, o resolvedor precisa estar seguro de que focalizou as relações entre as condições que estão sendo comparadas. A transferência intencional envolve o mapeamento das relações entre os problemas. Essa relação deve ser nos sistemas estruturais do problema, e não em seu conteúdo. Outro auxílio à resolução de problemas é a incubação, que é pôr o problema à parte durante algum tempo. Ela minimiza a transferência negativa, pois possibilita a flexibilidade do pensamento. Essa transferência negativa é o transporte de conhecimentos, habilidades e estratégias que funcionaram bem em outros tipos de problemas e dificultam sua resolução. Ela é um dos obstáculos à resolução de problemas propostos por Sternberg (2001). Há, ainda, configurações mentais, entrincheiramento e fixidez funcional. Configuração mental é, segundo o autor, uma estrutura mental que envolve um modelo que o solucionador tem para representar o problema. O entrincheiramento é a fixação em determinada estratégia que funcionou bem em outros problemas, mas que não funciona para o que precisa ser resolvido. A fixidez funcional é um tipo específico de configuração mental, que envolve a incapacidade de o solucionador perceber que algo que já é conhecido pode ser usado com outra função. Isso o impede de resolver novos problemas usando velhas estratégias ou instrumentos de maneira inédita. O que podemos inferir desses estudos de Sternberg é que, uma vez identificado o problema pelo resolvedor, ele pode configurar-se como bem ou mal estruturado. No entanto, as etapas seguintes do ciclo de resolução – representação do problema, construção de uma estratégia de abordagem, organização das informações, alocação de recursos, monitorização do processo e avaliação da solução encontrada –, acontecerão ou não em função daquilo que o resolvedor encontre como auxílio ou obstáculo à solução do problema identificado. Dessa forma, se o resolvedor não for capaz de fazer transferências positivas, se tiver pressa na resolução de um problema, se fixar-se em uma forma de resolução sem conseguir pensar em outras possibilidades, então haverá problemas na realização do ciclo apresentado por Sternberg. No entanto, se as transferências forem positivas, se as analogias acontecerem desencadeando novas e antigas relações, mesmo que isso signifique a incubação do problema por um período de tempo, então o ciclo se realiza, permitindo caminhos de solução do problema. Esse processo exige certa expertise ou experiência do resolvedor. Como a expertise afeta a resolução de problemas Segundo alguns pesquisadores, o que diferencia os expertos dos principiantes é que os primeiros possuem grandes e ricos esquemas para resolver problemas, unidades de conhecimento bem organizadas e altamente interconectadas aos esquemas; em comparação, os esquemas dos principiantes envolvem unidades de conhecimento relativamente pequenas e desconectadas, que são organizadas de acordo com similaridades superficiais. Outra diferença entre expertos e principiantes é que os primeiros dedicam mais tempo em buscar uma forma de representar o problema do que na procura e na execução da estratégia. Essa diferença em seu dispêndio de tempo se deve, segundo os pesquisadores, ao foco e à direção dada na resolução de problemas por eles. Os expertos também monitoram cuidadosamente as próprias estratégias e os processos de resolução de problemas com mais cuidado do que os iniciantes. Pela prática em aplicar estratégias, os expertos algumas vezes automatizam várias operações que podem recuperar e executar facilmente, enquanto resolvem problemas. Quando os problemas envolvem elementos inéditos, que exigem estratégias inéditas, entretanto, o automatismo de alguns procedimentos pode, realmente, impedir a sua resolução, pelo menos temporariamente. Por outro lado, o desempenho dos expertos alcança e ultrapassa o dos principiantes, talvez devido aos seus esquemas ricamente desenvolvidos e às suas habilidades acentuadas de automonitoração. O que esse processo que acabamos de analisar parece mostrar é que, ao contrário do que se possa pensar, a resolução de problemas sob o enfoque do resolvedor é processo dinâmico e complexo, que se apóia, entre muitas outras coisas, na própria capacidade de o resolvedor avaliar e acompanhar seus procedimentos, suas decisões. Tal monitoração não exige agilidade no sentido de fazer muito, mas sim de pensar muito, variadas formas, dar-se tempo para pensar. Em síntese, o tempo, a experiência, a capacidade de estabelecer relações entre conhecimentos e a auto-avaliação constantes seriam as marcas da expertise na resolução de problemas. | |
| Referências bibliográficas: | JESUÍNO, J. C. Processos cognitivos. In: Enciclopédia Einaudi. v. 34 – Comunicação/Cognição. Porto: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 2001. |